domingo, 25 de março de 2018

À PROCURA

Buscando a voz que me é propriamente humana
animal
pesquisando vestígio de sua presença
entre
cacos, fragmentos
do que já está perdido e
estranho
vagando por ruínas
naves remotas


pedaços de sons insilenciáveis — pranto convulsivo:
errei por compartimentos escuros do mais puro breu
antessalas ilusórias, subterrâneas... tateei...

(quando me estreitei de seu vulto
pensei que fosse finalmente me dizer quem
eu ia)

Encontrei-a lá onde jazem
todas as vontades enunciativas

livre e fria
não dizia por urgência de dever
ou por veleidades de poder


mas por um não-poder
por uma frouxa incontinência
pela alucinação sempre renovada
Pela falha certa


menos importava
o quê
do que
só dizer

dizer só

quem sou eu, ó voz, e quem soes voz?
quem somos nós? Tudo
nesse jogo estranho? Nada...

Voz de silêncios e pausas
e que solitude

Era uma voz sem impérios que é silêncio e que não cala
que não fala
não ilude
não salva
não serve

domingo, 3 de maio de 2015

Agr'ócio ou Jardinagem

amorinha,
me ensinaste
que amor é amora

então sou todo dentes
fomes
bocas

bochechas
esguichando saliva
molhando nossos papeis

fazendo borrões:
tu aparece
some, minuto quer ser hora

somente, sem firula,
semente-ócio:
é amora cansada

agora quer ser jabuticaba
e prepara para a fotografia
a melhor careta, a linguinha:

ser bonita, puff,
sempre foi pouco pra bastar:
troca a casca e o véu

derrama sobre meu peito
teus sucos de amora
me rega

domingo, 24 de agosto de 2014

Covinhas pantagruélicas

Mais que tempo (que passa)
menos que pouco (que faça)
uma hipótese levantada, sentada, deitada, enfim, inquieta:

acende um cigarro,
ascende uma alma.

É delicadeza de beicinho virado
que desejei para meu último poemeto
e soneguei compreensão aos meus irmãos:

Pirotecnia
Amor Condor.

Um dois três quatro cinco seis sete oito e contando
nos dedos que não tenho
que não contabilizam.

Uma covinha na bochecha,
rasa, desimportante.

Outra covinha, outra covinha
que escassamente ocultam gretas de solas de pés:
um pé-de-vento, um pé-de-flor, um pé-de-gente.

Rigor mortis.
Rigor, mais rigor, Homens!

Dionísio engole Apolo da derme para as entranhas,
em seguida, Apolo engole Dionísio das entranhas para derme
e agora, senhora, senhor, que sobra?

Que fazer com tantos cadáveres
numa cidade tão limpa, brilhosa e higienizada?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Entrevista com o diabo

Tua matéria
tua nuca
tua correia de fogo

Ocupo-me apenas
disto e de pouco mais:
teu semblante, pois,

É esta lâmpada
(neste ponto teus dedos inaugurariam
toda uma flora na Bahia

teu eterismo nenhum
teu cavalo-de-pau
o movimento de teu ombro)

Mas é exiguidade
tudo o que vejo, tua face,
um lampião na destra do diabo

que finalmente me encontra
de tanto que procura, imóvel,
em meu quarto, para certa entrevista

Com terno velho
unhas roídas
avança, pé ante pé,

Erguendo tua cabeça
e pára, rente a minha escrivaninha,
de lá de onde me vê:

Olha, franze o cenho, cospe no chão
diante de meu maravilhoso
tédio de topázio

Diante de minha
maravilhosa inércia mineral
(e sai, sem proferir palavra)



sábado, 24 de maio de 2014

Deixa

Deixa cair
Deixa sujeira acumular em tuas dobras
Deixa a ruga, a cicatriz
Marcar tua cara honesta
Deixa o rascunho
Deixa bater com força
Deixa soar

Deixa entalhar uma greta
Ao longo da tua envergadura
Deixa amolecer
Desfazer, dá corda
Deixa correr
Sentir sede, cansar
Deixa ter fome

Se morrer, morreu
Deixa de pena
De choro
O choro, a pena, tuas misérias
Tudo é de acabar
E acaba, no fim

Então deixa desgastar a palavra amor
Até exaurir a semântica bruta
E depois deixa
Deixa aos teóricos
Abandona o ofício ingrato
Ocupa-te apenas em libertar