Buscando a voz que me é propriamente humana
animal
pesquisando vestígio de sua presença
entre
cacos, fragmentos
do que já está perdido e
estranho
vagando por ruínas
naves remotas
pedaços de sons insilenciáveis — pranto convulsivo:
errei por compartimentos escuros do mais puro breu
antessalas ilusórias, subterrâneas... tateei...
(quando me estreitei de seu vulto
pensei que fosse finalmente me dizer quem
eu ia)
Encontrei-a lá onde jazem
todas as vontades enunciativas
livre e fria
não dizia por urgência de dever
ou por veleidades de poder
mas por um não-poder
por uma frouxa incontinência
pela alucinação sempre renovada
Pela falha certa
menos importava
o quê
do que
só dizer
dizer só
quem sou eu, ó voz, e quem soes voz?
quem somos nós? Tudo
nesse jogo estranho? Nada...
Voz de silêncios e pausas
e que solitude
Era uma voz sem impérios que é silêncio e que não cala
que não fala
não ilude
não salva
não serve
domingo, 25 de março de 2018
domingo, 3 de maio de 2015
Agr'ócio ou Jardinagem
amorinha,
me ensinaste
que amor é amora
então sou todo dentes
fomes
bocas
bochechas
esguichando saliva
molhando nossos papeis
fazendo borrões:
tu aparece
some, minuto quer ser hora
somente, sem firula,
semente-ócio:
é amora cansada
agora quer ser jabuticaba
e prepara para a fotografia
a melhor careta, a linguinha:
ser bonita, puff,
sempre foi pouco pra bastar:
troca a casca e o véu
derrama sobre meu peito
teus sucos de amora
me rega
me ensinaste
que amor é amora
então sou todo dentes
fomes
bocas
bochechas
esguichando saliva
molhando nossos papeis
fazendo borrões:
tu aparece
some, minuto quer ser hora
somente, sem firula,
semente-ócio:
é amora cansada
agora quer ser jabuticaba
e prepara para a fotografia
a melhor careta, a linguinha:
ser bonita, puff,
sempre foi pouco pra bastar:
troca a casca e o véu
derrama sobre meu peito
teus sucos de amora
me rega
domingo, 24 de agosto de 2014
Covinhas pantagruélicas
Mais que tempo (que passa)
menos que pouco (que faça)
uma hipótese levantada, sentada, deitada, enfim, inquieta:
acende um cigarro,
ascende uma alma.
É delicadeza de beicinho virado
que desejei para meu último poemeto
e soneguei compreensão aos meus irmãos:
Pirotecnia
Amor Condor.
Um dois três quatro cinco seis sete oito e contando
nos dedos que não tenho
que não contabilizam.
Uma covinha na bochecha,
rasa, desimportante.
Outra covinha, outra covinha
que escassamente ocultam gretas de solas de pés:
um pé-de-vento, um pé-de-flor, um pé-de-gente.
Rigor mortis.
Rigor, mais rigor, Homens!
Dionísio engole Apolo da derme para as entranhas,
em seguida, Apolo engole Dionísio das entranhas para derme
e agora, senhora, senhor, que sobra?
Que fazer com tantos cadáveres
numa cidade tão limpa, brilhosa e higienizada?
menos que pouco (que faça)
uma hipótese levantada, sentada, deitada, enfim, inquieta:
acende um cigarro,
ascende uma alma.
É delicadeza de beicinho virado
que desejei para meu último poemeto
e soneguei compreensão aos meus irmãos:
Pirotecnia
Amor Condor.
Um dois três quatro cinco seis sete oito e contando
nos dedos que não tenho
que não contabilizam.
Uma covinha na bochecha,
rasa, desimportante.
Outra covinha, outra covinha
que escassamente ocultam gretas de solas de pés:
um pé-de-vento, um pé-de-flor, um pé-de-gente.
Rigor mortis.
Rigor, mais rigor, Homens!
Dionísio engole Apolo da derme para as entranhas,
em seguida, Apolo engole Dionísio das entranhas para derme
e agora, senhora, senhor, que sobra?
Que fazer com tantos cadáveres
numa cidade tão limpa, brilhosa e higienizada?
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Entrevista com o diabo
Tua matéria
tua nuca
tua correia de fogo
Ocupo-me apenas
disto e de pouco mais:
teu semblante, pois,
É esta lâmpada
(neste ponto teus dedos inaugurariam
toda uma flora na Bahia
teu eterismo nenhum
teu cavalo-de-pau
o movimento de teu ombro)
Mas é exiguidade
tudo o que vejo, tua face,
um lampião na destra do diabo
que finalmente me encontra
de tanto que procura, imóvel,
em meu quarto, para certa entrevista
Com terno velho
unhas roídas
avança, pé ante pé,
Erguendo tua cabeça
e pára, rente a minha escrivaninha,
de lá de onde me vê:
Olha, franze o cenho, cospe no chão
diante de meu maravilhoso
tédio de topázio
Diante de minha
maravilhosa inércia mineral
(e sai, sem proferir palavra)
tua nuca
tua correia de fogo
Ocupo-me apenas
disto e de pouco mais:
teu semblante, pois,
É esta lâmpada
(neste ponto teus dedos inaugurariam
toda uma flora na Bahia
teu eterismo nenhum
teu cavalo-de-pau
o movimento de teu ombro)
Mas é exiguidade
tudo o que vejo, tua face,
um lampião na destra do diabo
que finalmente me encontra
de tanto que procura, imóvel,
em meu quarto, para certa entrevista
Com terno velho
unhas roídas
avança, pé ante pé,
Erguendo tua cabeça
e pára, rente a minha escrivaninha,
de lá de onde me vê:
Olha, franze o cenho, cospe no chão
diante de meu maravilhoso
tédio de topázio
Diante de minha
maravilhosa inércia mineral
(e sai, sem proferir palavra)
sábado, 24 de maio de 2014
Deixa
Deixa cair
Deixa sujeira acumular em tuas dobras
Deixa a ruga, a cicatriz
Marcar tua cara honesta
Deixa o rascunho
Deixa bater com força
Deixa soar
Deixa entalhar uma greta
Ao longo da tua envergadura
Deixa amolecer
Desfazer, dá corda
Deixa correr
Sentir sede, cansar
Deixa ter fome
Se morrer, morreu
Deixa de pena
De choro
O choro, a pena, tuas misérias
Tudo é de acabar
E acaba, no fim
Então deixa desgastar a palavra amor
Até exaurir a semântica bruta
E depois deixa
Deixa aos teóricos
Abandona o ofício ingrato
Ocupa-te apenas em libertar
Deixa sujeira acumular em tuas dobras
Deixa a ruga, a cicatriz
Marcar tua cara honesta
Deixa o rascunho
Deixa bater com força
Deixa soar
Deixa entalhar uma greta
Ao longo da tua envergadura
Deixa amolecer
Desfazer, dá corda
Deixa correr
Sentir sede, cansar
Deixa ter fome
Se morrer, morreu
Deixa de pena
De choro
O choro, a pena, tuas misérias
Tudo é de acabar
E acaba, no fim
Então deixa desgastar a palavra amor
Até exaurir a semântica bruta
E depois deixa
Deixa aos teóricos
Abandona o ofício ingrato
Ocupa-te apenas em libertar
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