quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um lenço de seda cor-de-rosa

Ela entrou rindo e se enroscando nos canos do trem insinuando alguns passos que já havia dançado horas antes na boate. Despudorada. Não se importou de acordar aquele povo todo que ia para o trabalho em vigília.
Se o dia deles estava começando, azar! O dela terminava.
Era domingo. Já passava das cinco.
Sentou-se ao meu lado. Não me percebeu. Ainda ria um pouco e relembrava partes do dia (ou da noite?) com as colegas.
Os fios grossos dos cabelos loiro-esverdeados já tinham pendido do coque. Vai ver estavam cansados. A franjinha - ou o pretenso toque de Lolita naquele rosto mais velho do que devia ser - já estava separada em gomos de sebo. Ela tinha suado muito naquela noite.
Bronzeado alaranjado da laje. Feiura pobre. Olhos maliciosos de quem sabe se defender. Rachaduras de uma idade mentirosa contornavam a boca manchada de um batom barato escolhido no catálogo da vizinha - a longa-duração durara menos que seu expediente. Tinha restos de purpurina espalhados pelo rosto. Não, Lobão, ali era 'decadénce sans elegánce'. O des-glamour. O des-amour.
Um sobretudo usado jogado por cima do corpo usado. Para protegê-la do frio ou dos censores externos? Por baixo daquele casaco, só consegui vislumbrar umas rendinhas azul-gasto. (Não paguei para ver o resto).
Pernas finas remetendo à miséria do passado, perdurando até o futuro. E tocos de pelo raspados se arrepiavam para lembrar que estava frio naquela insensível São Paulo. O inverno chegava (tinha algum dia passado?).
Chinelos creme-desbotado com tiras apertadas descansavam os pés que tinham dançado em um salto escandaloso. Nas unhas, esmaltes de cor cintilante-antiga, nada a ver com a coleção-tendência que a atriz anunciava na revista.
E ali, nos pés, ele. O turning point que me fez ter vontade de contar a história: no pé esquerdo, enrolado um lenço rosa-feio. Meticulosamente camuflador.
O pedaço de pano escondia escaras profundas, o pedaço da pele apodrecido por uma úlcera antiga e incontrolável. Um lenço de seda para esconder a ferida putrefata que estava para dominá-la toda. Um lenço cor-de-rosa para disfarçar o buraco roxo e vermelho que qualquer um abominaria. "Não, essa perebenta eu não quero". Diriam os cautelosos clientes. "Não me deito com uma puta doente".
Há que esconder a úlcera bexiguenta dos olhos dos distintos pais de família: ‘tiro tudo, menos o lenço, baby’. Há que fingir que a ferida não corrói, que tudo aquilo ali é apenas um arranhão de leve que já vai passar. Há que disfarçar a doença que em breve vai dorminar aquele corpo nunca a ela pertencido.
Sim, é essa a lição: sempre existe um lenço de seda rosa para envolver a feiura da puta.

A voz eletrônica anunciou a parada em alguma região de São Paulo bem longe da Avenida Paulista. A mulher seguiu seu caminho - talvez até um cortiço abafado cheirando a xixi de rato com cigarro barato.
Provavelmente, ela tomaria um café em um copo-americano, deixando uma marca de ex-batom vermelho. Depois, deixaria o sobretudo vestido no encosto de uma cadeira para dormir enquanto o resto da cidade corria.
E o lenço? Ela tiraria?

E eu respirei aliviada de ver a mulher bem longe de mim. Não gosto de ninguém que me faça lembrar que, apesar de não receber dinheiro, sou a mais vendida da cidade. E que meu puto coração é mais embolorado e ulcerento que o pé da puta.


(Por Gabi B. a Caio Fernando Abreu)

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